Das vantagens da ficção

Les Amantes, por René Magritte

A verve me espreita

os sonhos mais sórdidos.

Ela se debruça sobre mim

e com seus lábios melífluos

me beija

ardentemente.

Somos o próprio caos.

Depois de algumas horas de

gozo trocado,

eu, ainda distante de mim,

me lembro de Dulce,

a bibliotecária que lambe

dicionários.

Recordo-me também de Agenor,

o velho que cultiva bonsais

em torradeiras.

Me vem a mente, por último, a persistência

de Hugo, o menino que empilha grãos de arroz

com um apuro sobrenatural.

O que

por acaso

nos aproxima

é justamente

o fato

de que sonhamos sozinhos.

O que

curiosamente

nos mantem ligados

é  aquilo que

nos denuncia.

A consciência de que meu eu

só existe em lírica

não é um incômodo.

Muito pelo contrário,

é o que

dá ao meu aglomerado de células imprecisas

alguma verossimilhança.

O mundo seria ainda mais infindável

se todo espírito pudesse desfrutar do

prazer

de

inexistir.

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Como fazer

Mantenha

em território livre.

O recomendável é que se

refugie na parte da cabeça onde

a verve

nunca anoiteça.

Regue de três em três instantes,

com choro, suor, sangue ou qualquer

outra fagulha humana.

Se possível,

acenda um incenso.

Não são poucos os que apregoam

que o gesto confere ao objeto

um certo ar de efeméride.

Não se preocupe

em lapidar.

Não se deixe assombrar

por devaneios quanto

a forma.

O único desejo que deve prevalecer

é o de

a joia floresça.

A coisa estará perto de se concretizar

quando estiver menos matéria sólida e

se tornar algo fino.

Mas ainda assim tão tátil

quanto o próprio vento.

E, por fim,

para assegurar

a garantia

de todo o processo,

sem remorso ou indecisão

você deve

atirar a pedra

no meio

do

caminho.

Observação pertinente: você deve atirar

a pedra

no meio do

SEU

caminho.

 

 

 

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Eu moro em você

               A Ana Paula Forjaz

Uma casa,
ainda que tenha paredes,
não é uma casa.
Lar, ao contrário do que
bem imaginam,
é um estado de espírito.
Por isso eu me abrigo onde
de bom grado me acolham.
Minha casa é seu ombro.
Meu lar é a sua empatia.

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Depois do Oculista

Image

Naquela fatídica manhã, Jeová abrira os olhos e percebeu que tomava banho nu. Estranhou-se.

Neste mesmo dia, Jeová também beijara a mulher na boca, bebera o café em uma xícara, calçara as meias nos pés, penteara os cabelos com um pente, vestira o chapéu na cabeça, lera o jornal, subira as escadas por intermédio dos degraus, sorriu com a boca, almoçara pela tarde, pescou com uma vara, realizara chamadas com um telefone, urinou no vaso sanitário, respirara pelos pulmões, fumara um cigarro, fora até a capela para rezar, deitou-se no divã do psicanalista para dizer-lhe, dirigira as maiores ofensas ao chefe e pedira admissão no emprego.

Jeová quebrara o gelo da usualidade. Sentira-se orgulhoso. Mas, de todas as conquistas, a que mais o fazia se gabar era o fato de que durante as vinte e quatro horas de seu trinta de fevereiro, ele andara de pé.

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Maria das Dores

Me atento

pro seu passo coxo.

Pro seu interminável

solilóquio.

Pra maneira como

recrimina a própria ineficiência.

 

A forma com que

maldiz o tempo e os cabelos brancos,

não me intimida mais

do que seu

novo par de óculos.

As lentes deram

aos seu olhos,

um amplo grau

de severidade.

 

O caminho é o quarto.

Lá,

todas as súplicas

são rezadas.

Pois os clarões têm

de cessar.

Toda chuva e ventania

só deságuam

mal agouro.

 

O grito é o que vem

logo em seguida.

É preciso que alguém

encontre sua bengala.

Que insiste

em desaparecer.

Quase como

que querendo

pregar-lhe

uma peça.

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Aquele palhaço tem Graça

                                        

                                          Para Ana Carolina Nardi (feliz aniversário!)

A menina se apaixonou

pelo arlequim.

Ela pediu seu coração.

Ele entregou

o seu nariz.

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Relicário

 

Continuam sendo

os olhos do gato

a melhor lembrança.

Porque eles, tão devotos

quantos os meus,

costumavam acompanhar seus passos,

o pouso delicado

de cada um de seus pés

sob o duro

chão até a cozinha.

Porque eles, tão arrebatados quanto

os meus, deixavam-se hipnotizar

pela fineza de seus gestos.

Porque, rendidos, admiravam sem culpa

sua venustidade.

Olhos cerúleos que me espreitam

enquanto durmo e sonho

ronronar em seu colo.

 

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